UTIs avançam durante a pandemia, mas precisam de mais investimento

Data: 30/05/2022

 
Estrutura, capacitação e saúde mental das equipes são fatores-chave, de acordo com debatedores
Pressionada pelos casos graves de Covid-19, a terapia intensiva registrou avanços significativos na pandemia, mas ainda é preciso investir para que esse tipo de estrutura esteja mais bem distribuído no país e para dar suporte aos profissionais de saúde.
Enquanto São Paulo, por exemplo, tinha 2,73 leitos de UTI para cada 10 mil habitantes, em junho de 2020, a proporção era de 1,96 em Pernambuco, de acordo com o Conselho Federal de Medicina. Atualmente, o estado nordestino está com quase 90 crianças esperando por um leito de terapia intensiva —entre segunda (23) e terça-feira (24), dois bebês morreram na fila.
A trajetória do setor na crise sanitária e o panorama para as próximas décadas foram temas do seminário UTI: Evolução, Transformações Pós-Pandemia e Perspectivas para o Futuro, realizado na terça-feira (24) pela Folha, com apoio do Hospital Israelita Albert Einstein. O debate foi conduzido por Cláudia Collucci, repórter especial do jornal.
teleUTI foi um dos progressos ressaltados pelos debatedores nos últimos dois anos. O modelo se baseia na transmissão de conhecimento para que os intensivistas indiquem protocolos e rotinas de assistência e nas visitas virtuais em que especialistas ajudam a definir tratamentos.
No Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, um único sistema reúne os parâmetros clínicos coletados pelos equipamentos da UTI, que antes eram conferidos separadamente, explica Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho, diretor da divisão de pneumologia do InCor (Instituto do Coração) e professor de pneumologia do HC.
Os dados ficam disponíveis em painéis de controle instalados no hospital que podem ser acessados pela equipe médica também pelo celular, por meio de conexão VPN.
Ainda é possível criar alertas no painel caso algum indicador ultrapasse limites preestabelecidos e seja necessário intervir. Há testes em curso para o envio de notificações em celulares no futuro para esses casos, mas hoje a implementação dá preferência aos postos de enfermagem.
Já no Hospital Albert Einstein, o modelo foi impulsionado durante a pandemia com o projeto Tele-UTI Covid. Segundo o cirurgião Sidney Klajner, presidente do Einstein, 80 hospitais utilizaram o serviço, que já foi encerrado, garantindo atendimento a 5.000 pacientes com Covid.
Hoje, a expansão continua por meio do Tele-UTI Brasil, do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde), que visa implementar o modelo em 800 leitos de hospitais públicos de todas as regiões do país até 2023.
Apesar das melhorias implementadas com parcerias entre governos e hospitais referência no setor, as iniciativas ainda são pontuais, diz Carvalho. Para ele, o ideal para ampliar e aprimorar a rede de UTIs no país é reunir entidades públicas, privadas e universidades.
A telemedicina deve ser ainda um instrumento de formação dos profissionais que atuam na UTI, já que a capacitação dos médicos, enfermeiros e fisioterapeutas é determinante para pacientes com quadros complexos.
“Conseguimos resultados melhores quando o conhecimento pode ser aplicado na beira do leito. Onde isso não aconteceu, os desfechos foram piores”, diz Leonardo Rolim Ferraz, diretor do Hospital Municipal M’Boi Mirim – Dr. Moysés Deutsch, que é administrado pela Sociedade Beneficente Israelita Brasileira.
À frente da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo, Jean Gorinchteyn teve a mesma percepção quando foi preciso aumentar as vagas de UTI no estado por causa da pandemia. Para ele, é preciso investir na estrutura e na capacitação. Outro aspecto importante, diz, é melhorar as condições de trabalho oferecidas.
“Abrir leitos significava trazer profissionais. Com isso, a dificuldade, especialmente em algumas regiões, se mostrou nítida no que chamamos de vazios assistenciais: regiões em que a distância faz com que nenhum médico queira ir até lá. Vazios assistenciais e dificuldades operacionais deixaram muito claro que a medicina precisa ser revista.”
Além disso, a questão psicológica das equipes —afetada por problemas como a falta de equipamentos de proteção e a alta mortalidade de profissionais de saúde— deve ser um ponto de atenção.
 “Olhar para aqueles que estão cuidando é fundamental, porque vivemos um cenário em que a saúde mental dos profissionais está comprometida. Sabemos da dificuldade que é cuidar de um doente crítico”, ressalta Renata Pietro, presidente do departamento de enfermagem da Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira).
No avanço das UTIs, um ponto fundamental, segundo Carmen Valente Barbas, professora de pneumologia da Faculdade de Medicina da USP e intensivista do Einstein, é a organização de planos de ação para as próximas crises.
“O ser humano tem que estar preparado para ocasiões de pandemia. Vamos precisar de programas para aumentar e diminuir a capacidade de atendimento de doentes críticos de acordo com o que teremos que enfrentar. Temos que entender tudo isso e fazer um planejamento.”
Hoje, no Einstein, uma central monitora 150 indicadores dos pacientes e alerta quando algum está fora do parâmetro, diz Klajner. Futuramente, afirma, recursos de inteligência artificial vão permitir prever pioras, facilitando a prevenção de alterações graves.
“O hospital do futuro vai ser uma grande UTI, um grande pronto-socorro e um grande centro cirúrgico. As doenças crônicas vão ser monitoradas em casa, com programas para perceber quando os dados desse paciente —pressão, batimento cardíaco, oxigenação e glicose— saírem da faixa normal para impedir que descompense”, prevê Carvalho.
Fonte: Folha São Paulo